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O adeus a um mestre do tabuleiro e da vida.

Mestre Internacional Hélder Câmara

Herbert Carvalho

O xadrez brasileiro chora a perda do carismático Mestre Internacional Hélder Câmara (Fortaleza 1937- São Paulo 2016), que se diferenciava de seus pares pela amplitude de atividades além do tabuleiro. 
Foi lutador de boxe, poeta, escritor, compositor de música popular e militante político pela justiça social, na mesma trilha de seu tio arcebispo, que costumava dizer: "Quando ajudo aos pobres, dizem que sou santo. Quando falo das causas da pobreza, me chamam de comunista".
Hélder Câmara foi um amigo herdado de meu pai, Adriano Salles Toledo Carvalho, que me ensinou a jogar xadrez e nos anos 1970 atuava como árbitro e dirigente do xadrez paulista. Quando cheguei na Estação da Luz, numa certa manhã, para encontrar-me com meu pai, lá estava ele. Os dois tinham passado a noite na boemia. Alguns dias depois levou-me ao Jogral, boate frequentada por Paulo Vanzolini e outros expoentes da MPB paulistana. Ali se podia ouvir, na surdina, as músicas que a ditadura censurava. Em meu livro Tabuleiro da Vida (Editora Senac São Paulo), dedico algumas páginas ao amigo e companheiro, com quem tive a honra e privilégio de viajar para a Ilha de Malta, em 1980, quando ambos fizemos parte da equipe brasileira na Olimpíada de xadrez daquele ano.
Essas páginas estão transcritas abaixo. Antes porém, quero ajudar a preencher uma lacuna: Hélder Câmara deixou vários livros sobre xadrez, mas nenhum com suas poesias.  Por isso reproduzo mais um de seus sonetos, que guardei na memória e que não deixa margem à dúvida sobre o lado em que Hélder Câmara estava nas batalhas travadas pelos desfavorecidos:

Trabalhador mendicante
Sustém no ar o seu malho
E medita um só instante
Na força do seu trabalho

Ah! camponês exitante
Sua fé, seu espantalho
Não vale a gloria estafante
Da força do seu trabalho

E o mundo aguarda o levante
Vermelha a gota de orvalho  
Contra o burgo dominante

Contra seu Deus e seu pálio
Que vivem, quanto desplante
Da força do seu trabalho
  
Hélder Câmara, boêmio e poeta

No início da décadade 1970, no Brasil, quando o presidente Médici ouvia futebol no radinho de pilha e a Operação Bandeirantes (Oban) torturava e matava nos porões do regime, o mestre internacional Hélder Câmara, sobrinho e homônimo do cardeal de Olinda e Recife, foi ao cinema. Fumante inveterado, não conseguia esperar o final do filme e, ali, no escuro da sala de projeção, resolveu acender um Continental sem filtro com seu isqueiro Zippo. Encharcado de fluido recém-colocado, o isqueiro produziu uma chama enorme e alguém deu o alarme: "Fogo, o cinema está pegando fogo". Todos se precipitaram para fora da sala de projeção, menos o calmo mestre de xadrez. No tabuleiro ou fora dele, sempre seguia o conselho de Capablanca: "Sangue-frio vale uma peça". Alguém apontou a um soldado que acabara de chegar: "Foi aquele homem, com aquelas revistas embaixo do braço". O soldado levou todo mundo para o distrito, onde o delegado constatou que eram revistas de xadrez, mas em russo. "Esses números e letrinhas podem ser código secreto. Além disso, Hélder Câmara, esse nome é suspeito", pensou o delegado e em seguida decidiu:"Leva o homem para o DOPS".
Levaram. Interrogado, passou lá uma semana, protestando inocência. Quando perguntavam: "Qual o seu aparelho?", respondia invariavelmente:"É o clube de xadrez".
Depois que saiu, contava:"Me prenderam por causa do meu tio e das revistas russas. Ainda bem que não acharam em casa uma foto do Che Guevara jogando xadrez, com dedicatória".
Pouca gente sabe, mas o mestre internacional Hélder Câmara é um poeta de mão cheia e parceiro, em músicas, de grandes nomes da MPB, como Altemar Dutra.

Seu poema sobre xadrez, um soneto rimado e metrificado, que guardo na memória, é uma pequena obra-prima:

Na caixa dos meus trebelhos
Dormitam sonhos de glória
Alguns amargos conselhos
Uma partida, uma história

Ali trinta e dois espelhos
Refletem, viva memória
Anseios gastos, já velhos
De alguma quase vitória

E o meu tabuleiro a um canto
Cheio de poeira e de traços
Conserva-se em mudo espanto

Talvez por ver que ilusões
Depois dos nossos fracassos
Se perdem como peões

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