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Herbert Carvalho
Aspectos sociais do xadrez
Herbert Carvalho

O xadrez é um esporte de elite. Como atividade cultural, sua teoria e prática estão monopolizadas pelas classes dominantes. As salas bem equipadas, os tabuleiros, as peças, os relógios, os quadros murais, os livros técnicos - quase todos importados e em idiomas estrangeiros - são acessíveis apenas aos que podem freqüentar os clubes mais ricos e as melhores escolas. As pessoas que se destacam neste jogo, os “mestres”, são considerados “gênios”, “super dotados” e até mesmo “extravagantes”. No Brasil, negros não jogam xadrez e nem sequer freqüentam as salas especializadas. Até há bem pouco tempo, eram também raríssimas as mulheres que se interessavam, em geral desestimuladas pelos preconceitos e pelo tabu da “genialidade”. Esta visão deturpada do jogo de xadrez, alimentada pela imprensa ao mitificar enxadristas como o brasileiro Mequinho e o norte-americano Bobby Fischer, acabou por se generalizar. E, ao ficarem evidentes os traços de paranóia na personalidade destes supostos gênios, chegou-se a gerar nos meios intelectuais uma interpretação totalmente diversa: todos os enxadristas seriam loucos ou imbecis. “O xadrez desenvolve um tipo de inteligência que só serve para jogar xadrez”, afirmou um humorista famoso. Assim, vemos que a controvérsia é grande. E se nos aprofundarmos, veremos que esta questão não é casual. Na verdade, o xadrez não é uma atividade humana difícil ou desimportante, tanto do ponto de vista cultural como esportivo. Qualquer pessoa, adulto ou criança, homem ou mulher, branco ou negro, culto ou analfabeto - até mesmo deficientes mentais, pode aprender a jogar em poucos minutos. Experiências de difusão do xadrez em escolas, penitenciárias, etc, comprovam a facilidade com que pessoas de "QI não muito brilhante" assimilam o jogo. E, com prática e estudo, podem dominar perfeitamente a técnica. Por outro lado, permanece a pergunta: Qual a importância de se saber jogar xadrez? O que o domínio desta técnica pode acrescentar ao indivíduo e ao corpo da sociedade? Aqui está o cerne do problema: pode acrescentar muito. O xadrez é um jogo que representa uma guerra. É um exercício vivo de estratégia e tática. É a teoria e a prática da luta e do confronto. Como se trava uma guerra? É sair por aí dando tiros aleatoriamente? Qual o momento do ataque? Quando empreender a retirada ou providenciar a defesa das posições conquistadas? Em qualquer luta, é necessário um estudo cuidadoso do inimigo e das circunstâncias para o confronto, da correlação de forças, das condições objetivas e subjetivas em cada momento. É preciso conhecer bem o campo de batalha e os exércitos e forças que nele atuam. É disto que trata o xadrez. Transmite a quem o pratica conscientemente as formas de organização de um plano estratégico e sua aplicação prática no desenrolar da batalha. Habitua o indivíduo a considerar as causas e efeitos de suas atitudes. A pensar nos riscos de seus atos, a ponderar as ameaças de seu adversário, na tentativa constante de antecipar o que pode acontecer a partir do lance seguinte. Um jogador de xadrez sabe que uma atitude precipitada conduz à derrota e que a passividade inerte também. Sabe que só se deve atacar em situação de vantagem. Sabe que é momento de se defender se a situação é ruim. Sabe, enfim, que apenas a consideração global de tudo o que acontece no tabuleiro pode levá-lo à vitória. Portanto, o xadrez auxilia o indivíduo a se preparar para a luta, aumenta seu poder de confronto, embora haja muitas pessoas que sabem lutar excepcionalmente sem nunca terem ouvido falar do jogo de xadrez. Lampião, analfabeto e ignorante, sobreviveu durante 23 anos no sertão do Brasil contra forças mais numerosas e melhor armadas, porque sua estratégia era correta: não combatia contra o povo, mas contra os exploradores e latifundiários. Certamente seria um grande enxadrista se as injustiças do meio social em que viveu não o tivessem lançado a uma batalha mais cruel e violenta: a luta desesperada pela sobrevivência e pela dignidade. Saber lutar Vimos que o xadrez ajuda a aprender e a lutar. E saber lutar é importante? Esta outra pergunta é bem mais fácil de responder e sua resposta elucida toda a polêmica em torno do assunto. Explica também porque um projeto que propunha o ensino do xadrez nas escolas estaduais de São Paulo, foi vetado pelo então governador Laudo Natel, sob a alegação de que "xadrez é jogo de comunistas". Explica porque as colunas de xadrez do jornal Opinião foram censuradas na época mais obscurantista da ditadura militar, porque um torneio de xadrez iniciado entre os aspirantes a oficial do CPOR de São Paulo foi misteriosamente interrompido e porque um enxadrista foi preso por estar jogando e ensinando xadrez em praça pública, num ato de solidariedade à greve dos metalúrgicos do ABC, em 1980. Não interessa às classes dominantes que o povo aprenda a lutar. O trabalhador trava uma luta diária, tanto individual como coletivamente. É constantemente atacado e aprende a se defender. Luta contra a carestia, contra o dono da casa de aluguel, contra a polícia e contra os bandidos que matam inocentes nos morros e na periferia. Luta contra a miséria, a ignorância, o preconceito, a fome, a doença e a exploração. E, não raras vezes, luta contra o próprio trabalhador, enganado por mentiras. Ataca e denuncia seu companheiro, por não conhecer a estratégia de luta de sua classe, cuja vitória só pode ser obtida por meio da mais sólida unidade. Não é por acaso que grandes lutadores das causas sociais foram também exímios enxadristas, como Vladimir Ilich Lênin, Ernesto Che Guevara, Fidel Castro ou o teatrólogo Samuel Beckett. Voltamos à afirmação inicial. O xadrez é hoje um jogo de elite. Os próprios enxadristas que o praticam, os mais destacados, com raras exceções, aceitam o esnobe título de "gênios". Sua conduta social e sua concepção do jogo são estritamente individualistas e egocêntricas. Querem vencer os adversários, esmagar o ego dos rivais, conservando para si os "segredos" técnicos que os levaram à vitória. Mequinho, quando descobria uma boa jogada, corria para fechar a porta, a fim de que "espiões russos" não se apoderassem de sua descoberta. É evidente que este tipo de conduta e de concepção do jogo, além de socialmente improdutivas, conduzem aos conhecidos casos de paranóia. Estes jogadores se esquecem que, mais importante do que dominar uma técnica, do que saber como fazer algo, é saber porque fazê-lo. E de nada adianta ser campeão de xadrez em um País onde a esmagadora maioria da população vive na mais absoluta miséria, onde todas as atividades culturais, esportivas e científicas estão circunscritas a uma minoria, que detém o total monopólio do conhecimento. Nada vale desfilar pelas ruas em carro aberto após a conquista do título de Grande Mestre, se numa esquina um mendigo pede esmola e na outra menores cometem assaltos. É preciso ser muito insensível para apenas ver um tabuleiro e peças de xadrez à sua frente quando, em volta, no gigantesco tabuleiro do País, os trabalhadores são humilhados ao questionarem seus direitos. A técnica de xadrez é uma arma, como todo o conhecimento, e assim deve ser usada. Quanto mais pessoas dominarem esta técnica e somarem este conhecimento à sua experiência geral de luta, mais difícil será aos detentores do poder manipular peões contra um adversário impotente. E assim, como uma arma, o xadrez deixará os clubes elegantes e passará a ter lugar nas ruas, nos bairros pobres, nas fábricas, nos campos e nas construções. Quando for um esporte popular, praticado pela massa do povo, seu progresso técnico será real e não artificial como hoje. E o campeão de xadrez não será louco, nem gênio, nem imbecil. Será apenas como um peão do próprio jogo de xadrez, que como resultado de um conjunto de esforços atinge o objetivo de se transformar em rainha. Será mais um trabalhador, como o operário ou o engenheiro, praticando uma atividade que reflete a realidade e que a modifica e transforma.
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