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Ivan Carlos Regina
A PARTIDA INVENCÍVEL

Que eu jogo mal xadrez todos vocês já sabem. Vivo perdendo, embora seja presença assídua no nosso Clube de Xadrez.
Assim estranhei muito quando o próprio Presidente do Clube mandou me chamar. Marcou até hora para a conversa, no dia seguinte, em seu gabinete.
Cheguei uns dez minutos antes e ele, imediatamente, mandou-me entrar. A conversa foi muito misteriosa. Disse que queria que eu averiguasse um produto que haviam lhe oferecido. O que ? Não estava bem certo. Também não tinha interesse em comprar, mas queria ter a certeza de que aquilo não existia.
Em resumo, passou para minhas mãos um papel com um nome e um telefone – ISTVAN - 9221.xxxx, e que eu fosse, em nome dele, procurar o tal sujeito. Saí contrariado ; pensei tratar-se de um convite para jogar um torneio ou alguma viagem, mas aquilo não estava me cheirando bem.
No dia seguinte liguei para o homem. Sugeri nos encontrarmos em meu escritório, bem no centro, perto do metrô, mas Istvan disse que não poderia, e deu o endereço de um bar na Avenida Cruzeiro do Sul, ao lado da Rodoviária de Ônibus.
Quando cheguei no boteco, típico, sujo e com gente tomando pinga e café com leite no balcão, o tal tipo já me esperava. Era um dia relativamente quente, e o sujeito vestia um casaco de lã cinza, tão desgastado quanto o bar. Tinha a pele clara e uns olhos azuis, ou seja, aparentava ser eslavo. Identifiquei-o prontamente naquele ambiente.
Cumprimentamo-nos rapidamente, e ele, furtivo, levou-me para sentar numa mesinha no fundo do estabelecimento. Pediu uma cerveja e uma coxinha, que comia mordendo em pequenos pedaços. Trazia uma mala de couro negra, também bastante velha, da qual puxou um pequeno tabuleiro de xadrez, com peças em madeira. Eram muito antigas, com arestas quase inexistentes por milhares de pegadas anteriores. Os peões tinham depressões e as torres as bordas arredondadas de tanto manuseio.
Dispôs cuidadosamente o tabuleiro e suas peças e moveu o peão da dama para a quarta fileira, consultando um livro que trazia nas mãos. Ainda sem entender, respondi com o mesmo movimento. Cerca de vinte minutos depois havia perdido a partida. Jogamos mais uma, e depois ainda outra. Perdi todas, o que já era esperado. Depois eu disse : - “Não vim até aqui para perder no xadrez. Sou um péssimo jogador e já sabia disso. Aonde você quer chegar ?”
Ele arrumou de volta as peças à sua posição original, e candidamente respondeu - “Eis o problema : as brancas jogam e ganham!”
- “Como assim ?”, repliquei.
“É isto que você ouviu . A partir daqui as brancas ganham sempre”; dizendo isto mostrou-me o grande livro livro que portava, com folhas de computador impressas e encadernadas grosseiramente. - “Eis a partida que não pode ser perdida” - balbuciou.
Depois contou-me uma longa história : trabalhava para a contra espionagem soviética na época da Guerra Fria. Quando Gorbachov mandou o regime para o espaço, ele e seus amigos ficaram, subitamente, sem ter o que fazer.
Os computadores do serviço de informação soviético não tinham mais trabalho. Ele e seus colegas, a maioria enxadristas, usaram o parque informático para estudarem a abertura do peão da Dama. E tinham chegado a uma maravilhosa conclusão : depois de 1)d4 podia-se provar que as brancas ganhavam sempre. Haviam criado uma variante de jogo que sempre terminava com a vitória do primeiro jogador. Eles a chamavam de “a partida invencível”.
Perguntei como aquilo tinha vindo parar no Brasil, logo aqui que o nível de jogo não era tão alto quanto nos países mais desenvolvidos. Ele encolheu os ombros, e deu um sorriso que mostrava um canino obturado com ouro : “Aonde você queria que eu vendesse isto ? Nos EUA ? Na própria Rússia ? - evidentemente que eu não soube o que responder.
Ele contou-me ainda que a máfia russa o estava seguindo, por isto andava sempre desconfiado. Queria cem mil dólares americanos, em notas, não em cheque, para entregar a obra impressa, que garantiu ser o único exemplar existente, que roubara ao fugir de seu país natal.
Naquele dia voltei ao Clube de Xadrez e contei tudo ao Presidente. Este ria gostosamente e falava - “Só me faltava esta. Ivan, você perde de qualquer um. Até o Haroldo ganha de você. Não acredito”.
“ Só temos um jeito de verificar, Presidente : ponha o eslavo para jogar contra um ou mais grandes jogadores, e veremos se é um blefe.” .
Ele respondeu : “Está bem , Ivan ! Se for verdade, o que não acredito, tudo bem ; mas se for mentira, você me paga !”
- “Foi o senhor que mandou eu ir ver o que estava acontecendo. Não é obra de minha cabeça”.
-É que estou te achando empolgado demais com o tal Istvan. Vamos tirar esta história a limpo”.
Saí pensando na coincidência dos fatos, e até nas proximidades do meu nome, Ivan, com o misterioso Istvan.
No dia marcado colocaram três mesas de xadrez no gabinete principal do Clube. Iam jogar um grande mestre e dois mestres internacionais que o Presidente havia convencido com alguns carinhos e algumas ameaças. Os jogos estavam marcados para as vinte horas. Um pouco antes, os mestres, já previamente avisados que iam se defrontar contra o peão da dama, punham a limpo a teoria existente. Estavam presentes apenas os jogadores, eu, o Presidente, o vice e o tesoureiro do Clube.
Faltavam cinco minutos e nada do eslavo aparecer. O Presidente mirou-me com um olhar reprovador - “Só podia ser um embuste”. Mal terminou de falar, Istvan entrou pela porta vestindo o mesmo casaco de lã cinza, acredito que única peça externa do seu reduzido vestuário.
Cumprimentou-me, apresentei-o para o Presidente e para os três mestres (Silos, Pier e Chagall) e as partidas se iniciaram. O tempo de reflexão inicial era de vinte e um minutos para cada jogador. Meia hora depois o homem do casaco cinza havia ganho as três partidas, consultando sempre o seu livro avantajado.
Os mestres reclamaram que o tempo era pouco, que no xadrez rápido não podiam mostrar todas suas habilidades. Iniciou-se nova rodada, uma hora de tempo para cada contendor. Istvan não precisava pensar, apenas consultava as colunas de seu livro diabólico e fazia os lances. Um par de horas depois tudo estava terminado. Nosso GM levantou, visivelmente irritado com a derrota.
O Presidente estava muito nervoso, pois pediu ao copeiro que levasse Istvan para tomar um lanche no bar, pago às suas expensas. Quando o eslavo saiu, trancou e bradou : “ E aí, senhores É possível isto ? Será verdade ? ”
Não vou procurar contar a balbúrdia que se instalou, com todo mundo gritando ao mesmo tempo. A opinião geral, mas não unânime, é que não se tratava de um blefe. Realmente o homem possuía um manuscrito com a partida invencível.
O vice presidente, homem afável e silencioso, não resistiu : “Senhores, é o fim do xadrez. Nunca mais acontecerão torneios, prêmios para partidas mais belas, etc. Se este livro cair no domínio público , logo todos aprenderão a sequência que ganha sempre e o nobre esporte de Caíssa desaparecerá !”.
“Logo, devemos pagar o que este escroque pede ; mas onde vamos arranjar cem mil dólares , em dinheiro, onde ? “ berrava o Presidente.
Nova confusão foi instalada, com um jogador sugerindo dar uma pancada na cabeça do Istvan, botá-lo desacordado e subtrair-lhe o original.
O Presidente, que apesar de meio maluco era pessoa respeitável, negou. O Clube tinha mais de cem anos e jamais fizera vilanias para atingir seus objetivos.
Consultaram o tesoureiro para ver se era possível pagar. O que ouvimos foi uma completa surpresa : “Do Clube nem pensar, é muito dinheiro para sair das mensalidades. Agora, se o Sr quiser, Presidente, eu posso doar o dinheiro para a aquisição, em caráter absolutamente particular e sigiloso”.
Ficamos um bom tempo pensando na proposta – era fato conhecido que ele era o dono de uma pequena empresa de produtos químicos, e que era rico, mas não sabíamos que tanto. Pouco depois o Presidente falou - “Está bem , nós aceitamos a proposta, mas com uma condição : poremos fogo neste maldito livro tão logo ele esteja em nossas mãos”.
O tesoureiro pediu um tempo, indo ele mesmo ao seu cofre buscar a quantia estipulada. Istvan voltou, impaciente, olhava constantemente para a porta, como se esperasse, a qualquer momento, sua invasão. Depois de meia hora, mais ou menos, o negócio se concretizou. O tesoureiro trouxe os dólares numa mala de couro azul marinho, linda, mas o eslavo pediu dois sacos de papel pardo para o bar, guardou o dinheiro no bolso puído do casaco e entregou o livro, grosso, ensebado e com marcas de mãos sujas nas capas lustrosas.
Despediu-se de cada um de nós rapidamente e foi-se embora, com seu olhar medroso de sempre.
Ficamos sentados em silêncio. Um mestre, também cara de pau, disse baixinho : - “Senhores, antes de queimá-lo vamos usá-lo na Olimpíada de Xadrez. Já imaginou que surpresa : o Brasil campeão mundial de Xadrez ? O Gavião Buono apresentando ... Bem amigos ... O Brasil zil zil zil ganhou medalha de ouro ! De ouro ! O olho do Presidente começou a brilhar, mas o vice e o tesoureiro logo o chamaram à razão : “Não, nosso compromisso é queimar esta porcaria o mais rápido possível”.
Fomos em procissão até a lareira do Clube, pedimos ao copeiro uma garrafa de álcool usado na limpeza, e já nos preparávamos para incendiar a obra quando o inevitável aconteceu. O mesmo mestre deu um grito alucinado, roubou o livro e saiu correndo. A nossa sorte foi que a porta estava trancada, pois era tarde da noite. Capturamos o infeliz, e um outro MI afoito deu-lhe um soco no nariz (para compensar velhas mágoas). Ele pôs-se a chorar como um bebê do qual se arrebatasse a mamadeira. Balbuciava : “ O peão da dama sempre ganha, o peão da dama sempre ganha...”.
Sem mais sobressaltos, o livro foi jogado na lareira pelo Presidente, o vice derramou álcool em cima e disse : - “Por favor, Sr Tesoureiro – afinal, foi você que pagou!”.
Ele puxou uma caixinha de fósforos do bolso e atirou. Puff. Cem mil dólares começaram a arder. Ficamos nós sete a aspirar a fumaça, lentamente, que uma fina brisa esparramava. Quase todos nós , agora, chorávamos baixinho. Abraçamo-nos, até o mestre que havia tentado fugir com o manuscrito, e o Presidente pôs fim à história :
-”Ah, nobre Caíssa, esperamos ter evitado tua morte. Tomara que não existam mais cópias.”
E seguimos noite adentro, com os corações aliviados pelo dever cumprido. Não existe agora mais nenhuma partida invencível.

* Ivan Carlos Regina, nasceu em Bauru, SP e é escritor de ficção científica com vários livros publicados.

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